
Evolução dos padrões espaço-temporais e do escalonamento urbano das mortes por causas externas
A teoria do escalonamento urbano postula que indicadores urbanos Y variam com o tamanho populacional N de acordo com uma relação de lei de potência, Y ∼ Nᵝ, caracterizada pelo expoente de escalonamento urbano β (Bettencourt et al., 2007). As causas externas de morte constituem uma categoria fundamental de indicadores para compreender a distribuição desigual dos custos e riscos associados ao crescimento urbano. Embora estudos anteriores tenham investigado como o tamanho populacional afeta as mortes por causas externas (Bettencourt et al., 2010; Bilal et al., 2021), a existência de possíveis padrões temporais e o papel das diferenças regionais dentro de um sistema urbano permanecem amplamente inexplorados. Nesse contexto, analisamos quase três décadas de dados de mortalidade no Brasil para investigar o escalonamento das mortes por causas externas, incluindo homicídios, suicídios e acidentes (Sampaio Filho et al., 2026). Utilizando um modelo hierárquico bayesiano e análises de correlação espacial (Figura 1), verificamos que esses indicadores de mortalidade apresentam trajetórias de escalonamento distintas e regionalmente heterogêneas. A mortalidade por homicídios apresentou uma atenuação significativa de seu escalonamento tipicamente superlinear (β > 1), acompanhada por um aumento do agrupamento espacial. Esse resultado sugere uma redistribuição da violência para cidades menores e uma intensificação das interações entre cidades, possivelmente associadas à consolidação do crime organizado. A mortalidade por suicídios, geralmente sublinear (β < 1), apresentou uma tendência de crescimento, indicando um enfraquecimento do efeito protetivo das aglomerações urbanas. A mortalidade por acidentes permanece superlinear, com as mortes no trânsito escalando de maneira aproximadamente proporcional (β ≈ 1) e os acidentes não relacionados ao transporte tornando-se superlineares. Embora esses padrões de escalonamento tenham sido, em termos gerais, consistentes entre as regiões brasileiras, observaram-se disparidades regionais significativas na mortalidade ajustada pela escala, evidenciando trajetórias locais diversas e uma distribuição desigual da mortalidade por causas externas no sistema urbano.
Bettencourt L. M. A., Lobo J., et al. (2007). Growth, innovation, scaling, and the pace of life in cities. Proceedings of the National Academy of Sciences 104(17), 7301–7306. doi:10.1073/pnas.0610172104.
Bettencourt L. M. A., Lobo J., et al. (2010). Urban Scaling and Its Deviations: Revealing the Structure of Wealth, Innovation and Crime across Cities. PLOS ONE 5(11), 1–9. doi:10.1371/journal.pone.0013541.
Bilal U., de Castro C. P., et al. (2021). Scaling of mortality in 742 metropolitan areas of the Americas. Science Advances 7(50), eabl6325. doi:10.1126/sciadv.abl6325.
Sampaio Filho C. I. N., Carmona H. A., et al. (2026). Evolving spatiotemporal patterns and urban scaling of deaths from external causes. Scientific Reports 16(2101). doi:10.1038/s41598-025-31970-7.